Por um pescoço (1914)
As moedas de 400 réis, em cuproníquel, produzidas em 1914 sob a direção do Dr. Ennes de Souza, então Diretor da Casa da Moeda, não deveriam jamais ter saído daquela instituição, uma vez que o Ministro da Fazenda da época, Dr. Rivadávia da Cunha Corrêa, embora tenha aprovado o modelo em ofício datado de 6 de agosto de 1914, negou autorização para que fossem colocadas em circulação.
No entanto, especula-se que tenham chegado a circular, mas foram
imediatamente recolhidas. As que não puderam ser devolvidas à Casa da Moeda
permaneceram no mercado, possivelmente nas mãos de colecionadores ou de
pessoas que viram uma oportunidade em não devolvê-las.
É fato que alguns exemplares ainda existem, mas isso pode ter ocorrido por outra razão: como a quantidade produzida era grande, o Diretor Souza determinou que fossem fundidas em barras, não sem antes autorizar seus funcionários a retirar as moedas que desejassem, substituindo-as por outras de igual valor e peso, de modo a não alterar a quantidade de metal destinado à fundição. De acordo com o numismata Kurt Prober, essa circunstância explica por que algumas poucas peças permaneceram em circulação — não de forma oficial — e, justamente por isso, ele as classifica como provas de cunho.
Em contraposição, o numismata Eugênio Caffarelli sustenta que, oficialmente, a moeda não chegou a circular no país, embora tenha sido produzida em grande quantidade. Para ele, o fato de existir a possibilidade de uma breve circulação seguida de recolhimento, somado à elevada produção, reforça sua conclusão de que a moeda não pode ser considerada prova de cunho.
O mesmo Eugênio Caffarelli bem descreve a moeda:
ANVERSO
No centro, um pouco à esquerda, a figura da República
de perfil à direita, com barrete frígio, segurando com as
duas mãos um livro fechado no qual se lê a palavra LEX. À
direita, na altura do rosto, a Constelação do Cruzeiro do
Sul. Na orla, começando do ombro esquerdo da figura, um
arco de vinte e uma estrelas que termina à direita na
altura do livro.
REVERSO
No centro, as Armas da República, entre dois ramos, à
esquerda, de café, e, à direita, de tabaco. Os dois ramos
são, embaixo, atados com o Laço Nacional. Entre o Laço e
os dois ramos um feixe consular. Em cima das Armas da
República em linha curva, o valor 400 entre RÉIS. Tudo
isso dentro de um anel fino. Na parte externa do anel a
legenda REPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. No exergo, a
data 1914, entre estrelas sobrepostas de oito pontas,
separando o começo e o fim da legenda.
ORLA
Cordão dentado no anverso e no reverso.
Demais características
400 réis; cuproníquel; Ø 30 mm; peso 12 g; espessura 2 mm; borda lisa
Dois tipos, dois pescoços
Existem dois tipos de cunhos, conhecidos como pescoço baixo (ou curto) e pescoço alto (ou comprido). A diferença entre eles está no comprimento do pescoço que se projeta para fora do manto, ou seja, na distância entre a base do queixo e o manto: no cunho de pescoço baixo, essa medida é de aproximadamente 0,8 mm; já no cunho de pescoço alto, cerca de 1,3 mm.
Em 1914, foram cunhadas 645.750 moedas desse tipo e, em 1915, outras 932.250 moedas com a mesma data de 1914. Ambas as emissões utilizaram os dois cunhos, embora não se saiba em que proporção cada um deles foi empregado
O Famoso Níquel de 400 Réis de 1914, Kurt Prober
Imagens: Alberto Paashaus, Paul Gerritsen Plaggert com montagens de Eduardo Rezende